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Pode acabar bem, mesmo quando parece que não? – Review de “Beautiful World, Where Are You” de Sally Rooney

Por Nair Dos Santos

Se há tarefa em que Sally Rooney é fenomenal é a retratar a complexidade das relações humanas, sejam as de amizade, as familiares ou as amorosas. E se em Normal People (para quem conhece outras obras da autora) já o tinha feito de forma brilhante, em Beautiful World, Where Are You supera todas as expectativas.

Duas amigas que já não se vêem presencialmente há algum tempo trocam emails a relatar tudo o que se tem passado nas suas vidas e como se sentem. Alice é uma escritora bem-sucedida e Eileen parece ter a carreira estagnada. Vidas tão diferentes, mas tão semelhantes na forma como tanto Alice como Eileen encaram as adversidades.

No enredo entram ainda Felix, que Alice conhece através do Tinder, e Simon, amigo de infância de Eileen. Uma vez mais, ambos com vidas profundamente distintas, mas tão próximos na forma como parecem não saber aquilo que querem (semelhanças com o modus operandi de Connel em Normal People serão pura coincidência?).

Toda a narrativa é repleta de capítulos focados em cada uma das personagens, intercalados com trocas de e-mails entre Alice e Eileen.
Nestas quatro personagens principais, Sally Rooney injetou um realismo pertubador que tanto me fez lembrar de mim e dos meus amigos mais chegados. Não porque tenhamos vidas iguais às das personagens, mas por serem tratados temas como a incapacidade que temos de salvar alguém (quantos de nós não se entregam a esta missão impossível?); a dificuldade de mostrar aquilo que temos de mais precioso, que é a nossa vulnerabilidade; a incerteza do compromisso perante a possibilidade de mais um relacionamento falhado estar ali ao virar da esquina; o Síndrome de Impostor…

Seguindo este rumo, fica subentendido também um alerta para a depressão e para a ansiedade como condições mais prevalecentes do que parecem na sociedade dos dias de hoje. Situações como, por exemplo, dificuldades financeiras, a manutenção de relacionamentos amorosos problemáticos, a herança de familiares com distúrbios de personalidade narcísicos – e que Sally Rooney deixa bem patentes nesta obra – podem originar quadros depressivos.

Espelha-se ainda o desencanto com o estado atual do mundo e a sensação de impotência que muitas vezes sentimos quando finalmente tomamos consciência de que não sabemos como cá deixar a nossa marca antes de partir.

What if the meaning of life on earth is not eternal progress toward some unspecified goal – the engineering and production of more and more powerful technologies, the development of more and more complex and abstruse cultural forms? What if these things just rise and recede naturally, like tides, while the meaning of life remains the same always – just to live and be with other people?”

Os últimos capítulos são indubitavelmente os meus preferidos. Uma catarse de emoções leva quem lê a não conseguir parar de folhear até terminar. Identifico-me tanto com este livro que sinto que não vou terminar este ano sem reler.

Não há nenhum momento nesta obra que me tenha feito rir. Porém, muitos diálogos estamparam o maior dos sorrisos no meu rosto. Uma vez que aprendi a aceitar a tristeza como parte natural de todas as minhas emoções, ter lido Beautiful World, Where Are You trouxe-me uma sensação de pertença ao perceber que os meus problemas também são os de Alice ou os de Eileen e que muitos Simon e Felix já passaram pela minha vida para me deixar lições.

Será que pode acabar bem, mesmo quando parece que não? É ler para saber.

Nair Dos Santos.

Viciada em Cinema, livros e experimentar restaurantes. A minha carreira progrediu em Marketing Digital, mas sou formada em Ciência Política e Economia. Escrever é a maior paixão e fotografar um escape habitual. Cultura é para mim a melhor terapia, pois é nesta que me perco e encontro simultaneamente.

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