sem título

Por Soraia Queijo.

As mulheres quando descobrem quem são não param.

São capazes de correr muito. Elas correm sempre muito, mas quando sabem quem são correm mais e correm com sentido.

As mulheres são animais.
A minha mãe é animal.
A minha irmã é animal.
Eu sou um animal igual.

Forças inacreditáveis, de quem já correu muito.
Corro com todas porque um dia não tive companhia. E dói mais quando se corre sozinha.

Corri sozinha.
Corri nua.
Corri com sangue entre as pernas.
Sangue na boca.
Corri sozinha durante um aborto.
E a partir daí nunca mais corri sozinha, chamei-as todas para junto de mim. Para perto, para junto, para dentro.

E sei, que mesmo que corra sozinha, nunca estarei sozinha, terei todas elas, animais, em mim.

Soraia Queijo. 

35 anos, psicóloga, terapeuta familiar e de casal. Mãe de 3, inconformada, inquieta, escrevo nas horas ocupadas de um sítio que se chama Sines. 
Gosto do sol, de poesia e, essencialmente, de pessoas - quase todas.

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